terça-feira, 26 de maio de 2009

Breve vida

Comedido, sempre relutei em escrever sobre religião de maneira aberta ou incisiva em um veículo totalmente livre como a internet. Receoso, não debato, prefiro poupar a mente de quem não vai me entender pelo fato de, às vezes, o óbvio não ter muito a ver com a realidade ou a forma como os outros querem que a pensemos. O que me ocorre agora a cerca da religião é um pouco diferente do que sempre acontecia.


Em anos passados tive a oportunidade de ler a história para poder acompanha-la no seu desdobrar; descobrindo quase de forma automática o que vai acontecer depois de certos "sinais" que a vida nos dá; nada isso tem a ver com premonições é simplesmente lógico, quase matemático - o famoso como dois e dois são quatro. Na minha curta carreira de leitor - nove anos - quis ser psicólogo, estudei um pouco a profissão para saber se era realmente verdade a minha vontade ou apenas estava de passagem na minha cabeça adolescente aquelas idéias de a vida tem que dar certo ou vou morrer sem ter uma casa ou pilotar um carro, ter um barco, mulheres etc. Não era.


A psicologia - pouca - me fez refletir sobre algumas situações de maneira peculiar, e aí vinham os questionamentos. Os porques que incomodavam os professores na escola e os do catecismo. Minha raiz católica não colou em mim. Culpa da minha mãe. Ela é católica demais, foi obrigada a ser, em um lugar no meio do nada sem outra alternativa. Contudo minha mãe detinha um conhecimento que talvez nem ela saiba que o tem até hoje: Mamãe sabia, mesmo que de forma inconsciente, que crianças não tem religião. E o catecismo de domingo pela manhã foi trocado de vez pela Fórmula 1 ou o futebol no campo de terra.


Um dia um velho apareceu na minha vida. Seu olhar nem triste nem alegre, os cabelos assanhados, a grande barba grisalha e todo um mundo de conhecimento ali, naquela estrutura craniana grotesca e singular. Marx. Mas o velho já estava desgastado quando chegou a mim. Suas idéias já não usufriam mais daquele velho prestígio de épocas memoráveis quando se morria pelo ideal. Mas a máxima estava lá ainda flamejante: "O ópio do povo"!


E fui cambaleando, encostado nas tabelas do comum, debruçado sobre o peitoral da ignorância até cair de vez - e ainda hoje caio - no mundo livre S.A..


Claro, tive recaídas. Mas a voz da razão me busca. E a coisa vai se tornando tão nevrálgica, corrosiva e reconfortante. Sou eu. Sim, esse sou eu sem precisar de nada maior nem mais intenso, ou único, puro, onipresente, sábio, rico, esbulhador moral, possessivo, belicoso, violento, vingativo, machista, homofóbico, genocida ou outra fraqueza moral humana que lhe atribuam.


Não é fácil ser assim e perder muitas coisas para garantir, no mínimo a liberdade mental básica de admirar o que é belo e não ter sua "alma" a padecer no inferno pela eternidade. Não é fácil não ceder a essa opressão asquerosa, você foi educado a precisar disso, a clamar quando o sapato te aperta em algum lugar. Você foi estruturado para apelar a essa última instância para que a reforma nas instâncias reais não se operem pelas suas mãos de subalterno.


Não é fácil viver assim, distantes dos seus para ficar perto de você mesmo.


1 comentários:

agorabinhí disse...

A verdade é que estamos sempre a procura de nós mesmos, do nosso "eu" desconhecido. Mas essa descoberta as vezes não é exatamente aquilo que esperávamos. Boa sorte na sua procura!