quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sonhos, morte e salto da ponte.

Quando se contrai Varicela, a famigerada Catapora, só há um remédio: esperar. Esperar todas as erupções purulentas secarem ficando em casa sem poder se acomodar direito aguentando a coceira.
Sete dias sem trabalho, sete dias em casa. Sem a dor de cabeça poderia ser sete dias de leitura.
Vez por outra consigo me agasalhar e tirar um cochilo. Essa tarde, durante o sono, ganhei o que eu chamei de presente de sonho; tive uma conversa calorosa que não ocorria ha quase dez anos. Lá sentado numa cadeira de bar do Clube da Eletronorte, estávamos eu e Rodrigo, perguntando como andávamos e o que fazíamos desde a última vez que nos vimos. Concluímos que já fazia muito tempo e que mesmo assim Rodrigo não pareceu envelhecer um dia sequer, sempre o mesmo jovem de 17 anos, capoeira malandro e goleiro excepcional. Em determinado momento tive de sair, ir embora; e só depois de entrar no carro concluí que Rodrigo ainda não sabia que tinha morrido com um tiro no peito em frente a Escola Urbano Rocha, em uma noite triste de 2001.
Não me arrisco a dizer que a morte seja uma coisa boa ou ruim, a ausência é que quase insuperável. Não parece ser natural que um pai enterre um filho, por isso, a partida na juventude é a mais dolorosa e ingrata que a vida pode proporcionar a quem cuidou, educou e projetou sonhos para outro ser que parece uma extensão sua.
Olhando o vídeo do salto da ponte de Ronald Haddad, fiquei imaginando a juventude: no fim é um período de risco quase diário, não se imagina um jovem morto e a última coisa que o jovem pensa é na morte; talvez por isso se inverta até a lógica da ponte para a lógica do trampolim de uma altura em que a lógica da água se inverte com a lógica do concreto.
O além: para mim o que tem além da morte é uma família maculada, um plano desfeito e uma dor que só se suporta porque tem de se suportar; apesar de não ser religioso, ainda prefiro a vida, muito mais a vida, do que a morte, apesar da ideia aconchegante de céu. Para quem, como eu, não liga, a vida é o melhor que há, é a única chance.



3 comentários:

ELSON disse...

Parabens, pelo belo e profundo texto!
escrevestes com a ALMA...

Elson Araújo

Luís Diniz disse...

É isso aí, cumpadi, viver é que é arriscado demais. Melhoras!

Jorge Furtado disse...

Caro Natal,

Eu ja imagino que no proximo verao(periodo sem chuvas) alguns malucos vao estar saltando da ponte nem que seja de paraquedas so pra dar manchete, tomara que nao tenhamos mais corajosos para saltar daquela altura.